02 maio 2008

PARA REFLETIR


EU SEI, MAS NÃO DEVIA
(Autora: Marina Colassanti)

Eu sei que a gente se acostuma,
Mas não devia

"A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista
que não as janelas ao redor. E por que não tem vista, logo se acostuma a não
olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir
de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a
acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma esquece o sol,
esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A
tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não
pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A
cochilar no ônibus poruqe está cansado. A deitar cedo e a dormir pesado sem
ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a
guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os
mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz.
E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos
números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e
ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber
um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A
gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar
para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. e a
fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que
cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro,
para ter com o que pagar nas filas em se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver
anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a
engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na
infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao
choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às
bactérias da água potável. À contaminação da água do mar À luta. À lenta
morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas
do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas,
tentando não perceber. Vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma
revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente se senta na primeira fila e
torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os
pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola
pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a
gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. se
acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da
baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que
aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma."

Um comentário:

Anônimo disse...

Este texto se chama EU SEI, MAS NÃO DEVIA da famosa escritora Marina Colasanti. Isso nos lembra Berthold Brecht quando diz: "nunca diga isso é natural"
bj
Neuzamaria